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Você conhece a história da Síndrome de Rett? Ela pode ser da idade dos seus pais, sabia?

Mãe e filha olham para a foto vestidas de branco. A mãe é uma mulher de pele morena, cabelos castanhos, sorrindo, enquanto olha para a foto, toca nos ombros da filha que tem cabelos curtos castanhos e pele branca.
Associação Brasileira de Síndrome de Rett - Abre-te
fev. 3 - 6 min de leitura
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Entre o final da década de 1950 e início da década de 1960, dois médicos europeus, em diferentes situações e circunstâncias, começaram a reconhecer e a se interessar pelo quadro clínico de uma determinada condição (que mais tarde viria a ser conhecida como a Síndrome de Rett).

Um deles foi o Dr. Andréas Rett, médico pediatra vienense (Áustria), que identificou algumas crianças do sexo feminino que apresentavam um padrão peculiar de expressão do desenvolvimento neurológico após um período de desenvolvimento aparentemente normal durante a primeira infância.

Essas meninas apresentavam especialmente desaceleração do perímetro cefálico e perda do uso funcional das mãos (apraxia manual) e de habilidades comunicativas (incluindo linguagem e interação social); todas elas desenvolviam movimentos manuais estereotipados incomuns (como bater ou esfregar as mãos, ou levá-las e batê-las na boca).

Com essas observações devidamente registradas, o Dr. Andreas Rett viajou por toda a Europa, participando de diversos encontros científicos, com o objetivo de despertar o interesse da comunidade científica para as suas observações e de levantar junto a outros médicos se eles tinham pacientes com características clínicas similares às que ele havia observado. A grande parte da produção científica do Dr. Andréas Rett foi escrita em alemão e publicada em periódicos médicos locais de Viena. Sua única produção em língua inglesa foi publicada em um Manual de Neurologia Clínica, e nesse texto ele ainda associava a desordem que havia observado com presença de hiperamonemia.

Mais ou menos na mesma época, outro médico pediatra chamado Bengt Hagberg (Göteborg, Suécia) também começava a observar meninas que apresentavam padrões comportamentais bastante similares. Dr. Hagberg documentou cuidadosamente os seus casos, mas não se preocupou em publicá-los em periódicos científicos nem em confrontá-los com outras eventuais publicações da literatura mundial, preferindo incluir as crianças que havia observado num grande grupo de crianças com deficiência mental e motora inespecífica.

No final da década de 1970, Andréas Rett e Bengt Hagberg se encontraram casualmente durante encontro científico realizado no Canadá, ocasião que permitiu o desenvolvimento do primeiro relato em língua inglesa amplamente divulgado para a comunidade científica, o qual foi publicado em 1983 no periódico Annals of Neurology.

Foi nessa ocasião que a desordem já tão reconhecida e documentada pelos dois médicos europeus recebeu, pela primeira vez, a atenção que merecia dos médicos e pesquisadores norte-americanos. A Síndrome de Rett passou, então, a ser amplamente diagnosticada em todo o território dos Estados Unidos, e o Instituto Nacional de Saúde começou a se interessar seriamente em apoiar programas de pesquisa envolvendo essa síndrome. Nessa época foi criada a primeira associação de pais e interessados na condição, a IRSA – International Rett Syndrome Association, cujos esforços imensuráveis possibilitaram pesquisas de todas as ordens sobre a síndrome, no sentido de se entenderem suas características clínicas e suas possíveis causas.

No Brasil, os primeiros casos de Síndrome de Rett foram publicados pelo Dr. Sérgio Rosenberg e sua equipe (Santa Casa de São Paulo) em 1986 e, em 1990 foi fundada a Associação Brasileira de Síndrome de Rett no Rio de Janeiro. Desde o princípio, a maioria dos neurologistas infantis já vislumbrava a natureza genética da Síndrome de Rett, devido à sua ocorrência quase que exclusivamente no sexo feminino e ao conhecimento de casos recorrentes ainda que em pequeno número de famílias (como irmãs gêmeas ou tia/sobrinha afetadas, e mesmo o caso de uma mulher com Síndrome de Rett que, tendo engravidado em decorrência de uma violação, deu à luz uma criança também portadora da síndrome).

Por meio de uma série de estudos envolvendo esses casos familiares, foi possível restringir as pesquisas para a porção mais final do braço longo do cromossomo X, denominada Xq28. Essa direção nas pesquisas para se descobrir a causa da Síndrome de Rett foi definitivamente adotada com os estudos realizados em uma família brasileira natural do Paraná em que havia quatro filhas com a Síndrome de Rett. Foi assim que, finalmente, em setembro de 1999, se estabeleceu a associação dessa condição com mutações no gene MECP2.

Desde então, as bases genéticas da Síndrome de Rett vêm sendo exaustivamente estudadas no mundo inteiro, inclusive no Brasil, tanto para a compreensão das manifestações clínicas quanto para a busca de meios medicamentosos que possam amenizar sinais e sintomas. Em 2007 as pesquisas relativas a Rett entraram em uma “nova era” quando Bird e colaboradores (Escócia) mostraram para o mundo a possibilidade de reversão de alguns sintomas em modelos animais já adultos (ratos) com a Síndrome, através do restabelecimento de níveis apropriados de proteína MeCP2, rebatendo a ideia de dano neuronal irreversível.

Além de abrir novos caminhos para a pesquisa, este feito reforçou ainda mais a percepção de que Rett era uma severa desordem de desenvolvimento e não uma doença neurodegenerativa e que, apesar dos neurônios terem morfologia diferenciada, não havia morte neuronal. Atualmente, várias frentes de pesquisa estão em andamento. Desde a ciência básica da síndrome, seus aspectos metabólicos, o uso de modelos com células pluripotentes para screening de novas drogas, passando por testes de medicamentos, chegando à terapia genética, uso de “minigenes”, reativação do gene MECP2 e reposição da proteína MeCP2.

Conforme são publicados os resultados, maiores são as evidências de que, mesmo após a sua manifestação, um dia será possível possível amenizar ou reverter alguns sintomas de forma a impactar significativamente a qualidade de vida da pessoa com Rett e, consequentemente, de sua família. E, isto, nos enche de esperança!


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