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Transição do berço para cama de crianças que usam órtese Dennis Brown

Transição do berço para cama de crianças que usam órtese Dennis Brown

 

Será que meu (minha) filho (a) vai cair da cama? Compro a cama com grade ou sem? Coloco rolos de proteção ou deixo sem nada para evitar que a órtese enrosque ou algo possa sufocá-lo (a)? E se ele (ela) sair andando com a órtese pela casa durante a madrugada e eu não ouvir? Qual o modelo mais seguro? Essas e tantas outras dúvidas surgiram quando nós, eu e meu marido, resolvemos substituir o berço pela cama para o meu filho de dois anos e meio em tratamento de Pé Torto Congênito (PTC). Compartilho com vocês a minha experiência e o que nos motivou a apressar essa transição.  

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Hoje o Martim está com dois anos e quase sete meses. Começou a usar a órtese Dennis Brown para correção de seu pé esquerdo logo após a etapa de gessos, recomendado pelo Método Ponseti. Com pouco mais de dois meses de vida, dormia e permanecia usando a órtese por 23h, retirando apenas para o banho. Aos cinco meses, quando eu voltaria ao trabalho após a licença-maternidade, tivemos a tão esperada alta para as 14h de uso. Ele passaria então a usar para dormir e durante o dia ficaria sem o dispositivo. Foi uma enorme conquista para nós e principalmente para ele, que passaria a ter os pezinhos ‘livres’ por 10h.  

Quando ele ainda era um bebê usando a órtese e pesava poucos quilos, o ato de carregá-lo para todos os lados fazia parte da rotina e eu não reclamava por isso. Não existia dor física. Pensava sempre que o dispositivo e aquele momento eram mais pesados pra ele que pra mim.  

Estabelecemos uma rotina e disciplina para usar o dispositivo. Ele ia crescendo e dormir sempre foi um desafio. Talvez sentisse incômodo ao usar a órtese, por não conseguir encontrar a posição mais confortável, por sentir alguma dor ou querer colo. Nunca vamos saber exatamente o que ele sentia. Acho que seria tão interessante lembrarmos de tudo que vivemos desde o momento que saímos da barriga das nossas mães. Não acham? Um dia ele poderia me contar o que sentia naquelas noites de choros e muito colo (risos). 

Quando ele tinha quatro meses, fizemos a primeira grande transição: colocamos o Martim no berço para dormir sozinho e no quarto dele. Até então, usávamos o mini berço acoplado à nossa cama. Em quatro meses, o móvel ficou pequeno e o berço traria mais conforto e espaço para se movimentar com a órtese.  

No decorrer de mais alguns meses, o Martim ganhou força nas pernas e maior flexibilidade no corpo para se movimentar. Sempre no tempo dele, ia aprendendo a virar, girar de uma ponta a outra do berço, encostar na grade, se contorcer todo até encontrar a posição mais confortável usando o dispositivo.  

Para maior conforto das pernas, eu usei e uso até hoje travesseiros, almofadinhas ou cobertores dobrados para apoio.   


Nenê vai para o berço sozinho

Dois anos se passaram e comecei a sentir dor física. Em uma noite, sentada no sofá fazendo o Martim dormir no meu colo, disse em voz baixa para o meu marido que estava cansada. Sentias dores nas costas e na lombar. O Martim estava grande, pesado e com a órtese ficava ainda mais pesado na hora de colocá-lo no berço de grades altas. Durante as madrugadas, quando ele ainda acordava para mamar, eu, sonolenta, tirava ele do berço, colocava de novo e assim repetia duas a quatro vezes por noite. A conta do cansaço chegou e era preciso fazer alguma coisa mais prática e funcional.  

No dia seguinte desse desabafo, na hora de dormir, o Martim não quis meu colo. Saiu engatinhando com a órtese e seguiu para o seu quarto. Não entendi o que ele estava fazendo e perguntei se queria ajuda. Ele me respondeu com uma frase surpreendente e que me paralisou por alguns minutos: ‘nenê beço sozinho’. Tradução: 'Nenê vai para o berço sozinho'.  

Em um primeiro momento, me senti péssima. Na hora lembrei do desabafo e pensei na possibilidade de ele ter escutado, apesar de tão pequeno.   

Do jeito dele, foi sozinho até o berço e esticou os bracinhos para que eu o colocasse dentro. Ali, naquele exato momento, observando seu trajeto do corredor até o quarto com a órtese, percebi que entrávamos em uma nova fase e precisava permitir maior autonomia dele, mesmo sentindo insegurança por algo novo que estava surgindo. Decidimos substituir o berço pela cama.  


Mas qual o modelo mais seguro para crianças que usam órtese? 

Vou falar o que funcionou para nós, mas você, mãe ou pai de uma criança que faz uso de órtese, vai pesquisar e avaliar o que atende à necessidade de seu (sua) filho (a). No caso do Martim, a médica que o atende sugeriu o modelo Montessori, aquele que fica no chão e permite maior autonomia para a criança. Meu maior receio era ele sair andando pela casa sozinho e se machucar (de órtese ainda).  Mas também compreendi, depois daquela frase dele que não saia da minha cabeça, que meu filho precisava, além de autonomia e liberdade, de espaço para se movimentar com a órtese durante a noite. Entre tantos questionamentos, cancelamento de compra por falta de entrega da loja e alguns transtornos, optamos pelo tamanho de solteiro, modelo Montessori (com grades).  

Nos primeiros dias, ainda dormindo somente no colchão, se movimentava tanto a ponto de ir pro chão. Por isso, coloquei rolos grossos (formando uma espécie de barricada) para evitar que saísse do colchão. Deu muito certo!  

Autonomia 

Com a aquisição da cama (com grades laterais), ao acordar, o Martim levanta e vai para o nosso quarto me chamar. Costumo deixar os brinquedos que mais gosta ao seu alcance, caso queira brincar. Não precisa mais esperar por mim ou pelo pai para sair do berço. Vai sozinho!  

Aquele bebê de órtese cresceu. Continua usando, mas ganhou força para se movimentar e adaptar o que for necessário para alcançar o que precisa usando o dispositivo. Hoje ele anda, corre, pula e agora começou a saltar.  

A transição da cama significou uma nova fase para ele e para nós, com muito mais autonomia e liberdade.  

 

Martim e a cama 'grande' com o lençol da Patrulha Canina, um de seus personagens favoritos. 

Adaptação

E se o seu (sua) filho (a) demorar um pouco a se acostumar com a cama, seja qual for o modelo, utilize personagens, histórias que envolvam essa novidade para a criança. Em casa, por exemplo, o Martim gosta da Patrulha Canina e contamos a ele que chegaria a cama com os personagens, bem graaaannde, e teria uma missão importante: proteger seus amiguinhos! 

O sono melhorou muito e meu filho já não acorda com a mesma frequência durante a madrugada. Hoje o incômodo é o calor, mas isso é tema para um próximo post. 

Mundo Adaptado®
Franciela Fernandes
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Sou Jornalista, casada, mãe do Martim - um menino cheio de vontades, sorridente e dócil. Adoro conhecer e me emocionar com histórias de vida. Sei que temos muito a adaptar neste mundo nem sempre adaptável, mas podemos e devemos fazer a nossa parte.

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