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Sono X uso de órtese

Sono X uso de órtese

Já contei aqui para vocês um pouco da nossa história e da luta diária no tratamento de Pé Torto Congênito (PTC) do meu filho. Hoje vou falar sobre o sono dele e as práticas que adotamos para amenizar o incômodo causado pelo uso da órtese durante a noite.

Já imaginou dormir com algo que te impede de se movimentar? Ou então, a cada mudança de posição ao dormir, a órtese batendo em algum lugar e você acordando assustado (a)? Com certeza, você acordaria e levaria mais um tempo para se tranquilizar até pegar no sono novamente. Não é diferente com um bebê. Agora, imagina um bebê submetido a esses ‘sustos’ por várias vezes durante a noite? Difícil, né?

Pois essa é a rotina que tivemos até pouco tempo atrás. Eu colocava o Martim para dormir e, até entrar em sono profundo, ele virava dezenas de vezes de um lado para o outro, batia a órtese nas grades do berço e acordava, às vezes assustado, chorando ou até gritando, quando já estava maiorzinho e começou a chamar por ‘mamãe’. 

Isso não acontecia de vez em quando. Todas as noites, muitas vezes durante a madrugada, eu levantava e o acalmava com carinho, colo e amamentação. O incômodo ia embora e ele voltava a dormir. Até que vinha o próximo susto da órtese batendo na grade e o ciclo recomeçava.

Eu tinha de ser paciente para esperar ele se acalmar no tempo dele. Nunca cedi ao choro e retirei a órtese. Sempre tive medo da recidiva. Até porque, com menos de um ano, a chance de voltar a ficar torto é de 80%.

Não queria isso pra ele nem para nós. Aprendi a abstrair o choro e elevar minha mente para outro lugar. Algo me fazia lembrar de paisagens lindas que já conheci em algum momento da vida.

Claro que muitas vezes sentei e chorei, mas nunca na frente dele. Chorava no chuveiro, com o meu marido, no caminho pro trabalho, mas não poderia nem posso, até hoje, demonstrar fraqueza neste processo. Ele sente tudo. Sabe quando estou triste, feliz, desanimada, alegre e desmotivada.

Fazer o Martim dormir sempre foi um desafio. Ele até dormia, mas logo acordava e começava todo o ciclo novamente: acalma, dá colo e amamenta.


Rotina

O Martim está com 1 ano e 8 meses, começou o tratamento com 15 dias de vida e, aos dois meses e meio, começou a usar a órtese. Primeiramente, durante 23 horas. Depois, passou a usar por 14 horas e, há pouco mais de nove meses, usa por 11 horas. Normalmente, coloco às 20h e retiro às 7h. Se houver qualquer mudança nessa rotina, para mais ou menos, compenso no dia seguinte.

O Método Ponseti, nome do tratamento que nosso filho recebe, recomenda o uso por 14h nesta fase, mas pode haver redução desse tempo. Vai depender de cada caso e, principalmente, da avaliação do médico (a) ortopedista.

No caso do meu filho, se ele continuasse usando por 14h, a órtese provocaria a hipercorreção de seu pé esquerdo. Por isso, foi recomendada a redução do número de horas, o que para nós, pais de filhos com o pé torto, é um enorme alívio (confesso!). Essas três horas a menos significam mais tempo para brincar, andar, correr, subir e descer, se movimentar sem qualquer limitação.

Eu não encontrei nenhum estudo sobre o tema, também não sei se o uso da órtese influencia no sono da criança, mas vou relatar aqui a minha experiência de mãe que acredita nessa relação de sono instável com o uso da órtese.

Também levo em consideração acontecimentos pós-parto. Tive uma gravidez muito tranquila, apesar de ficar sabendo sobre o pé torto com vinte e poucas semanas. Trabalhei até a véspera do nascimento dele, minha bolsa estourou no trabalho e de lá mesmo seguimos, eu e meu marido, para o hospital. Desejei o parto normal, me preparei pra isso, mas como não temos o controle de tudo nessa vida, o Martim nasceu de uma cesárea. 

Após o parto, não pude recebê-lo em meus braços. Ele nasceu às 8h do dia 09 de março de 2018, e só consegui segurá-lo e amamentá-lo às 22h daquele mesmo dia. Eu me sentia fraca, sensível, passei mal horas depois do parto. Mãe sempre carrega culpa, não é mesmo?

O Martim ficou conhecido na maternidade como o ‘bebê chorão’. Ele chorava muito. Era um choro desesperado. Talvez fosse o meu choro também, não sei. Até hoje guardo essa lembrança e sempre me emociono quando conto essa história. É daquelas feridas que não cicatrizam.

Não é fácil para uma mulher virar mãe de um dia pro outro, mesmo quando se leva nove meses gerando um filho. Precisamos de um tempo para entender essa dinâmica, essa nova vida e a enorme responsabilidade de ter para sempre alguém para cuidar, amar, ensinar e proteger. Ninguém disse que seria fácil, mas naqueles primeiros meses, assim como outras mães de filhos que necessitam de algum cuidado especial, eu não teria tempo para pensar em nada além dele e do grande desafio que estava por vir:  o tratamento para o Pé Torto Congênito (PTC).

Paciência sempre foi uma das principais práticas que adotei neste processo todo, na vida, e principalmente no quesito sono do meu filho.

No início do uso do dispositivo, o Martim ainda dormia no berço acoplado à nossa cama. Ele ainda não tinha força nas pernas para se movimentar, então dormiu por meses de barriga para cima. Às vezes, eu colocava um travesseiro pequeno entre as pernas na tentativa de mudar um pouco a posição, mas ele logo se incomodava e voltava e ficar de barriga pra cima.

Aos quatro meses, passou a dormir no berço no quarto dele. Foi uma opção nossa, por acreditarmos que teria mais espaço para se movimentar e o uso da órtese não seria tão desconfortável neste sentido.

Passados alguns meses, já com força nas pernas, começou a se movimentar e apoiava a órtese na grade do berço para dormir de lado. Eu sempre pensava ‘como ele consegue se contorcer todo assim para dormir?’. Eles são mesmo mais fortes do que supomos. Ele sempre encontrou uma posição confortável para dormir.

Tempos depois, com mais de um ano, a tinta do berço começou a sair por conta desse desgaste de bater a órtese pra lá e pra cá. O importante era o Martim dormir (rs).

Faz uns quatro meses que o nosso guerreiro passou a dormir melhor, também por conta da idade. Acorda menos durante a noite, mas não deixei de seguir o ritual do sono: reduzir as luzes, contar uma história ou colocar uma música para acalmar, diminuir o barulho na casa, dar aquele banho relaxante, carinho e colo.

Ele já se acostumou com a órtese. Não chora mais na hora de colocar, só reclama quando está perto do horário de retirar porque quer sair andando para todos os lados. Não acorda mais tantas vezes, e em alguns dias dorme a noite toda.

Hoje, para garantir um sono estável, mantenho as práticas adotadas no começo do tratamento, ajustando-as aqui e ali de acordo com os novos desafios do tratamento. 

 

 

Mundo Adaptado
Franciela Fernandes
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Sou Jornalista, casada, mãe do Martim - um menino cheio de vontades, sorridente e dócil. Adoro conhecer e me emocionar com histórias de vida. Sei que temos muito a adaptar neste mundo nem sempre adaptável, mas podemos e devemos fazer a nossa parte.

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