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Conscientização da criança sobre o uso da órtese Dennis Brown

Conscientização da criança sobre o uso da órtese Dennis Brown

 

Chegamos a mais uma etapa importante do tratamento de Pé Torto Congênito (PTC) do meu filho Martim. A poucos dias de completar três aninhos, ele passou a ter consciência sobre o uso da órtese Dennis Brown. Comprende que todos os dias, no mesmo horário, precisamos colocar o dispositivo para dormir e já não foge ou corre pela casa para se esconder da botinha. É claro que não foi sempre assim, enfrentamos muitos desafios até aqui e em todos fomos testados emocionalmente e fisicamente.

Lidamos com sentimentos contraditórios, entre a consciência sobre a importância do tratamento e a vontade enorme de arremessar a órtese na parede ou pela janela. Foram anos de lágrimas e dezenas de noites mal dormidas de todos.

O que eu posso dizer para outras famílias que enfrentam desafios semelhantes nesta e em outras fases do tratamento de Pé Torto Congênito? Tenham calma, só ela poderá te ajudar. Não desista. Não cedam aos choros, ainda que pareçam desesperados. Tenham em mente que retirar a órtese não vai resolver, aliás vai causar outros danos daqui a algum tempo. A criança pode até parar de chorar, dormir e você ter aquela noite de sono tranquila, mas saiba que recidiva é consequência. Acredite que todo seu esforço de hoje está valendo a pena para que o (a) seu (sua) filho (a) tenha uma vida normal no futuro.

Muitas vezes, durante as madrugadas, quando meu filho acordava chorando ou dizendo que estava sentindo dor, depois de acalmá-lo, eu conversava com Deus. Pedia que me desse força para resistir e não desistir. Acredito na força da oração de mães e acho realmente que temos crédito com o todo poderoso.

Já vi e li muitos casos de famílias que acabam abandonando o tratamento nesta fase, exatamente porque a criança ganha consciência e passa a ter vontades, fazer mais manhas e influenciar os pais ou responsáveis para que cedam nos horários e na rotina de uso da órtese. É aí que mora o perigo!

Eu também já cheguei a pensar: "Ah, mas só algumas horas não vão fazer diferença no tratamento". Ou: "Vou deixar ele brincando mais um pouco e depois coloco". Ou, ainda: "Só hoje vou deixar ele dormir mais relaxado sem a órtese'. Posso compensar depois e tá tudo certo." Essas e outras tantas justificativas podem ser usadas para explicar a recidiva, mas o fato é que a responsabilidade sobre o uso da órtese e toda a rotina que envolve o tratamento é do cuidador da criança. Por mais que eles tenham consciência sobre a importância do uso, não possuem entendimento suficiente para controle dos horários, disciplina, responsabilidade e muito menos poder de decisão sobre usar ou não. São apenas crianças. Pense nisso antes de tirar porque seu (sua) filho (a) estava chorando demais.

Também não julgo mães ou famílias que, por alguma razão, não conseguiram dar continuidade ao tratamento por diversos motivos e a deformidade acabou voltando. Conheci muitos casos em que as crianças tiveram de recomeçar o tratamento da fase do gesso. É doloroso para a criança e para todos da família. Uma coisa é um bebê colocando gesso, outra é uma criança de três, cinco ou sete anos encontrar maneiras de brincar, pular, correr com um gesso da ponta dos dedos até a virilha. Não é uma combinação muito favorável. Nestes casos, é preciso muito diálogo com a criança e apoio emocional.  

O fato é que o Martim deixou de sentir dor durante as madrugadas e, aos poucos, entende que precisa usar a órtese. Apesar de ainda pequeno, procuro conversar muito com ele, explicar que a órtese serve para corrigir seu pezinho e usar corretamente a botinha o ajudará a andar, correr e pular normalmente, assim como seus amiguinhos.

Quando lia comentários de outras mães em grupos de redes sociais falando que a ‘botinha’ era amiguinha da criança, confesso que sentia certo desconforto. Não considerava a órtese uma amiga nem queria que o Martim tivesse essa relação com um dispositivo que daqui a algum tempo deixaria de usar. Na minha cabeça órtese era órtese e pronto! Precisa usar e vai usar o tempo necessário até obter alta médica.

Radical essa maneira de pensar? Eu também acho. Não deixa de ser um pré-julgamento até vivenciar determinadas etapas do tratamento pelo Método Ponseti. Mas estou aqui para aprender e, com o tempo e um tanto considerável de lágrimas no chuveiro, mudei meus conceitos, principalmente por ver ele crescer e me ensinar que, assim como a maternidade trabalha minha capacidade de criar e improvisar, as fases do uso da órtese não são diferentes.

Em cada uma delas encontro maneiras de lidar melhor com o dia a dia e os desafios do tratamento. Em uma recorro ao lúdico, em outras aos super-heróis, mais adiante crio mundos alternativos no ambiente familiar, buscando sempre maneiras de amenizar o incômodo do meu filho em relação ao uso da órtese. E por que não dizer que o dispositivo se tornou um amiguinho do meu filho? Digo sem aquele desconforto lá do início do tratamento. 

Vai chegar um dia em que seu (sua) filho (a) também vai pedir para colocar a órtese porque é hora de dormir e sabe que precisa colocar. Você vai se surpreender,  se emocionar e chegar à conclusão mais importante desta etapa: está no caminho certo! Está fazendo o melhor que pode para o (a) seu (sua) filho (a).

Hoje eu recorro ao Capitão América, o personagem da Marvel que o Martim adora. Ele usa botas vermelhas e o Martim também. Ele tem um escudo e o Martim também. Ele é herói e o Martim também.

Avante! 

              Martim brincando de ser o Capitão América, sem a órtese.

 

 

Mundo Adaptado ®
Franciela Fernandes
Franciela Fernandes Seguir

Sou Jornalista, casada, mãe do Martim - um menino cheio de vontades, sorridente e dócil. Adoro conhecer e me emocionar com histórias de vida. Sei que temos muito a adaptar neste mundo nem sempre adaptável, mas podemos e devemos fazer a nossa parte.

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