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Pé Torto Congênito e a dor do crescimento

Pé Torto Congênito e a dor do crescimento
Franciela Fernandes
nov. 21 - 4 min de leitura
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Todas as fases do tratamento de Pé Torto Congênito (PTC) são desafiadoras e dolorosas para as famílias, apesar de os médicos ortopedistas e profissionais da saúde tentarem nos mostrar que quase tudo faz parte do processo, do tratamento e do desenvolvimento da criança. Quando me refiro à dor não estou mencionando somente a física. Talvez meu filho não se recorde dos quatro anos de tratamento nem de todas as etapas que vencemos juntos. Mas isso, porém, não minimiza  a minha dor emocional, a do meu marido, a dos avós do meu filho ou de quem quer que esteja por perto acompanhando e convivendo com a gente. 

Na fase do gesso, que considero a mais dolorosa para os pais, meu filho, por exemplo, era um bebezinho de 15 dias. Para ele era só o incômodo de ter um gesso em sua perninha esquerda, mas pra nós representou a dor profunda, eu diria na alma. A cada troca de gesso, que era semanal, eu e meu marido levávamos dias para nos recuperarmos emocionalmente. O ambiente hospitalar, o choro de outras crianças, o cheiro característico do hospital, os banhos na bacia e as lágrimas do meu filho nos fizeram vivenciar durante quase 60 dias de idas e vindas ao hospital uma montanha-russa de sentimentos. Estávamos felizes por ter em nossos braços o maior presente que a vida nos deu. Por outro lado, questionávamos Deus, o universo e todas as coisas do mundo pelo que estávamos passando. E passou. 

A cada nova etapa do tratamento e do desenvolvimento do meu filho, reaprendemos a lidar com os nossos sentimentos. Nenhum médico conta pra gente essa parte, nem espere isso. Os pais vão descobrindo no dia a dia a melhor maneira de lidar com as situações, aprendendo a entender o filho e percebendo suas necessidades. Isso independe de nascer com alguma deficiência, faz parte do processo do que é ser mãe, pai e responsável por esse serzinho que chegou ao mundo para te transformar.  

Quando vejo meu filho brincando, correndo, pulando, subindo e descendo de móveis, sinto um tremendo alívio. Não sei se essa é a palavra mais adequada, mas vou usar essa mesmo porque é o que sinto. Um alívio! 

É difícil o tratamento? Sim e muito. Não vou te confortar dizendo que é super tranquilo ou que seu filho vai se adaptar rapidamente à órtese quando chegar nesta fase, ou que terá um sono dos anjos. Cada criança reage de uma maneira. Cada família encara de uma forma. Mas em TODAS as etapas posso te garantir que vai precisar ter paciência, disciplina e muita, mas muita força para não desistir e abandonar o tratamento no começo, no meio ou no fim. Já tive vontade de arremessar a órtese para bem longe incontáveis vezes. Nenhum problema nisso, desde que fique só na vontade mesmo. 

Meu filho está com 2 anos e 8 meses, começou o tratamento aos 15 dias de vida e, ainda assim, depois de tanto tempo, algumas noites são bem intensas e a nossa resiliência é testada novamente por aqui.  Hoje vivemos a fase em que ele acorda de madrugada pedindo para retirar a órtese, diz (gritando!) que está doendo o pezinho e movimenta as pernas tentando retirar o dispositivo. Não queira imaginar como essa cena nos afeta emocionalmente.

Esse tempo de tratamento não me ensinou a deixar de querer estar no lugar dele, sentir o que ele sente, dormir uma noite com a órtese para entender o que isso significa. Cada vez que temos uma noite de choros,  sinto aquela dor na alma que eu falei no começo deste relato. Para ele é a dor do crescimento, para mim é como se as lágrimas do meu pequeno abrissem a ferida que não cicatrizou. 

Não desisto. Não retiro a órtese. Abraço forte. Seguro sua mão gordinha e macia. Digo que vai passar. Choro junto. Oro. Abraço mais um pouco e falo baixinho no ouvido dele: 'Filho, estamos fazendo isso para você ter uma vida normal no futuro. Crescer dói e nós estamos crescendo juntos'. 

Martim usando a órtese Dennis Brown, em tratamento desde os 15 dias de vida. 

 


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