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Vínculo entre mãe e filho durante o tratamento

Vínculo entre mãe e filho durante o tratamento

 

Quando recebi meu filho nos braços na maternidade, não sabia amamentar. Apesar de assistir a dezenas de vídeos, ler blogs, sites e vários canais de maternidade durante a gestação, ainda não tinha aprendido. Não compreendia o significado de amamentar e estava nascendo como mãe.

Depois de alguns dias tentando ‘acertar a pega’, como chamamos, pensei em desistir. Afinal, não deixaria de criar um vínculo com meu filho nem ele deixaria de me amar por não amamentá-lo. Persisti.

Meu filho nasceu com Pé Torto Congênito (unilateral esquerdo) e, aos 15 dias de vida, iniciou um tratamento com diversas etapas, que inclui colocação de gessos, cirurgia e uso adequado de órtese para correção da deformidade. Se era intuição materna eu não sei, mas sentia que ele precisava ser amamentado, meu leite poderia ajudá-lo no tratamento. Ouvi a voz do coração.

Martim sendo amamentado. 

Toda vez que ele sentia fome e eu sentava para amamentá-lo, pedia ao meu marido para ligar o ventilador. A dor era tanta que eu transpirava. Meus seios ficaram doloridos e machucados antes, durante e depois da amamentação. Era a dor do sentimento incondicional ao qual mãe é submetida quando se torna mãe. Descobri que era forte.

Nesse período, recebi ajuda de amigas que estavam vivendo o mesmo que eu e outras que eram mães há mais tempo. Uma delas, a Regi Varela, mãe de dois meninos, veio até a nossa casa e literalmente me ensinou a amamentar. Coisas assim não têm preço.

Depois dessa visita, fiquei mais uns dois dias ajustando a ‘pega’. No terceiro dia, decidi insistir mesmo se não aguentasse de dor. Meu filho conseguiu mamar e nos entendemos ali. Não sabia quanto tempo duraria essa fase nem queria prever isso. Vivi intensamente cada fase da amamentação. Vencemos juntos.

Ao iniciar o tratamento pelo Método Ponseti, eu o amamentava durante a etapa de trocas de gessos. Enquanto um gesso era retirado e outro era colocado, eu o amamentava. Quando voltávamos para a casa, e o bebê estava com a perna engessada da ponta dos dedos até a virilha, eu o amamentava. No dia da cirurgia em seu pé esquerdo (a Tenotomia), eu o amamentei. Após a fase dos gessos e o início do uso da órtese, eu o amamentava. Em dias de vacinas, choros noturnos, ou carinha de quem queria um ‘tetê’, eu o amamentava. Criamos nosso vínculo.

Amamentação durante o tratamento pelo Método Ponseti. 

Meu filho foi crescendo e a cada nova fase desse primeiro ano de tratamento, encontrei maneiras de continuar amamentando, por mais que tenham aparecido desafios pelo caminho. Sentia-me a heroína dele.  

Voltei de licença-maternidade quando meu filho estava com cinco meses. Colocamos ele na escola e iniciamos nova fase: a ordenha. Potes e mais potes eram armazenados no freezer para que meu marido oferecesse a ele e o estoque fosse suficiente para a oferta também na escola. O trabalho em equipe funcionou e a rede de apoio do meu marido foi essencial.

No início, a órtese era usada por 23h. Depois, passou para 14h, e atualmente  são 11h horas de uso. Meu filho acordava (e ainda acorda de vez em quando) várias vezes na madrugada. Em todas as oportunidades, eu o amamentava. Mesmo cansada e me sentindo um trapo, eu o amamentava. Mãe cansa, mas levanta.

O tempo foi passando e meu filho estava com mais de um ano, quando a sombra do desmame começou a aparecer entre nós. ‘Ele já tá grande’, ‘já come de tudo’, ‘está mais que na hora de desmamá-lo’. Só nós dois sabíamos qual seria o momento certo. Seguimos no propósito.

Já que não tive um parto normal quando meu filho nasceu, desejava que o desmame ocorresse de maneira natural e gradual, sem sofrimento para nenhum dos dois. Mas a gente cria expectativas e quase sempre a realidade é bem diferente. Lá vem a dor incondicional de novo. Mãe é sonhadora.

Após dois anos, um mês e 26 dias, chegamos ao desmame. Foram três meses de avanços e retrocessos, até o dia em que ele não pediu mais o ‘tetê’. Não pediu mais algo tão nosso. Doeu. Sabia que aquele era o momento que tinha esperado acontecer. Ao mesmo tempo, me dei conta de que, de alguma forma, precisaria ‘criar’ novos vínculos com o meu filho.

Houve abstinência dos dois lados, além da dor e do vazio, que estamos superando. 

Brincamos, corremos, nos amamos e novos vínculos vão surgindo. Deixo para trás essa etapa inesquecível como mãe e abro espaço para que outras fases nasçam, para me reinventar como mãe e mulher também.

Feliz Dia das Mães! Feliz Dia a todas as mulheres (e homens também) que se reinventam para dar conta de construir um mundo melhor para os seus filhos, com vínculos que eles carregarão para vida.

 

Mundo Adaptado
Franciela Fernandes
Franciela Fernandes Seguir

Sou Jornalista, casada, mãe do Martim - um menino cheio de vontades, sorridente e dócil. Adoro conhecer e me emocionar com histórias de vida. Sei que temos muito a adaptar neste mundo nem sempre adaptável, mas podemos e devemos fazer a nossa parte.

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