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"Para mim, nascer prematuro era só nascer antes do tempo" - parte 2

Continuando...(leia parte 1 aqui)

E então às 7h da manhã do dia seguinte da internação resolvi ir ao banheiro. O pai do meu filho ainda dormia e eu tinha liberação para ir e voltar do banheiro. Levantei, sentei na cama, calcei meu chinelo e fui até o banheiro. Sentei no vaso, fiz meu xixi e...um líquido continuou a pingar mesmo eu tendo terminado de urinar. "Que isso?", eu pensei.

Fiquei um tempo paralisada. Me secava e o líquido voltava a sair. Fui invadida por um sentimento que até hoje eu não sei explicar. Desespero, talvez. Saí do banheiro e gritei"chama a enfermeira, eu estou passando mal!".

Enquanto eu esperava de pé, paralisada na porta do banheiro, o líquido amniótico escorria pelas minhas pernas e formava uma poça embaixo de mim. As enfermeiras vieram logo e me puseram na cama. A cara delas não era boa e eu fui ficando pior porque sabia que perder líquido não era bom. Na cama, as contrações começaram a ficar doloridas e ritmadas. Eu me segurava nas "grades" laterais da cama para esperar elas cessarem até vir outra e outra e outra. 

Decidi ligar para a minha médica e contar o que estava acontecendo. Ela logo me atendeu e contei: "minha bolsa estourou". Do outro lado um silêncio seguido de "você tem certeza?". Ela pediu para falar com a enfermeira chefe. "Sim. Bolsa rota mesmo, doutora. É bastante líquido. A cor está clara. Ok. OK". De volta ao telefone comigo me avisou que estava indo para o hospital me encontrar.

Enquanto elas falavam as contrações continuaram e a cada uma delas, mais líquido. A cama estava encharcada, eu também. Me sentia suja, preocupada, mas ainda não tinha a mínima noção da gravidade do caso. De uma certa forma, pensar que meu filho nasceria naquele dia me deixava feliz. Inocente! Avisei minha família e percebi a tristeza na voz da minha irmã.

Não sei quanto tempo passou, mas minha médica chegou, me examinou e disse "eu não queria que fosse assim. Mas, acho que seu bebê vai ter que nascer hoje". Um misto de ansiedade e tristeza tomou conta de mim. Eu comecei a ter febre alta, sono, tomei a injeção de surfactante para ajudar o pulmão do bebê a "amadurecer" mais rapidamente em casos de parto prematuro e debati com a minha médica se seria parto normal ou cesárea. 

Contrariando os médicos do hospital e a grande maioria da população, decidi por parto cesárea. Queria que meu filho tivesse todas as chances para tentar sobreviver e ter o mínimo de complicações (que ainda nem imaginada quantas poderiam ser). Se no parto normal ele corria mais risco por várias questões, a cesárea com certeza seria minha opção. E assim decidimos.

Subi para a sala de parto com febre, indicativo de que eu estava com alguma infecção. Mais tarde eu saberia que infecção urinária é uma das principais causas de parto prematuro. Se eu tive algum sintoma que me alertasse para a infecção? Nenhum. Apenas a dor na barriga no dia anterior ao do parto. Infecção urinária assintomática. Mais tarde vim a saber que eu e o bebê corríamos riscos naquele momento. Se a infecção se tornasse grave e generalizada, nós dois poderíamos ir a óbito.

As horas foram passando e o quadro se agravando. Decisão médica: parto imediato. Não pude esperar as 24 horas para o remédio fazer o efeito esperado e nem tomar a segunda dose do surfactante. Medicada para febre, fui para a anestesia peridural e conheci um anjo. Um anjo em forma de gente que ficou ao meu lado para me acalmar. Me abraçou, deu um travesseiro para eu abraçar durante a aplicação, segurou a minha mão, me conformou e disse que estaria ao meu lado a todo instante. Como isso foi importante!

Eram aflitivos todos os procedimentos que faziam em mim. A sensação de mexerem na minha barriga, aquela sala gelada, a tensão do parto. De repente um choro bem baixinho causou uma explosão de lágrimas e mim e consegui colocar para fora toda a tensão. "Ele nasceu. Tão pequenininho", o pai falou ao meu ouvido.

Eu não vi meu filho. Acredito que a grande maioria das mães de prematuros que estejam lendo também tenham passado por essa experiência. Vi umas cinco pessoas passando rápido ao meu lado e sumindo pela porta da sala de parto. Chamaram o pai para dar continuidade aos processos e eu fiquei sozinha olhando para aquele holofote enorme de luz em cima de mim enquanto minha médica terminava a cirurgia.

Cada minuto a partir daí pareceu demorar horas. Eu queria que tudo aquilo terminasse rápido.  A anestesista me deu três doses de sedação e me pediu para relaxar. Mas, dormir era impossível. A adrenalina no sangue era tanta...

Após o período na sala de recuperação subi para o quarto onde minha mãe e irmã esperavam. Contei que ele havia chorado ao nascer e todos recuperaram um pouquinho de esperança como tinha sido comigo lá na sala de parto também. Eu fiquei algum tempo, talvez horas, falando duas coisas: "alguém pode ir lá ver como ele está" e "estou com dor". Estava confusa por causa das medicações.

Continua...

 

Mundo Adaptado
Beatriz Yuki
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Jornalista, mãe do Pedro - um menino adorável que nasceu prematuro com 25 semanas de gestação.

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