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Um dia de cada vez!

Um dia de cada vez!

Estava pensando, será que devo iniciar este texto novamente dizendo “que não somos estranhos, apenas não fomos apresentados ainda...que me chamo Nótlia Zirtaeb, mais uma mãe atípica que caiu de paraquedas neste mundo não adaptado que é a vida”... e decidi que sim! É necessário fazer novamente esta apresentação, pois não sei se quem está lendo me conhece! E se pararmos para analisar, a maioria das pessoas temem o desconhecido, sentem receio do estranho! E isso acredito ser normal!

Não é estranho o primeiro dia de aula? Não dá medo a primeira entrevista de emprego? E o que você me diz em se imaginar responsável por um ser humano totalmente vulnerável!
Mal sabíamos que o desconhecido seria nosso novo sobrenome!

É! Lembro que quando decidimos aumentar a família, ao contrário do que ocorrem com a maioria das mulheres que procuram um ginecologista porque não conseguem engravidar, ou aquela que chega apavorada pois o teste de farmácia deu positivo, iniciamos esta jornada já tentando prever qualquer possível problema que pudesse vir a ter, antes mesmo de existir, esta era minha estratégia de controlar o desconhecido, pois eu nunca havia engravidado, e estava ciente da imensa responsabilidade que é a de gerar um bebê, e eu sendo do jeito que sou, não gostaria de ter nenhum tipo de surpresa que fugisse ao meu controle.

Lembro do ginecologista olhando minha ficha e sem levantar os olhos me perguntar: qual o problema Nótlia, no que posso ajudar?

E eu respondi: bem, o Sr. que irá me dizer se tem algum problema!

Ele não entendeu minha colocação... acredito que você também não!

Explico. Pense da seguinte forma: você fará uma viagem incrível de carro para um lugar que você sempre desejou conhecer, e quer viver todas as experiências possíveis que esta grande viagem promete proporcionar, qual o primeiro passo? Fazer uma revisão no carro, checar pneus, óleo, amortecedores etc, ficaremos dentro dele por um longo tempo percorrendo o caminho, até chegar ao nosso destino! Então nada mais coerente que fazer uma revisão em mim (risos)! Parece estranho! Mas eu serei o carro do meu bebê, sem mim ele não chegará ao destino!

Devia ter filmado a cara que o médico fez! Jogou a caneta na mesa, largou todo seu peso no encosto da cadeira, deu um sorriso e disse: acho que você é a primeira paciente que faz isso, procurar um médico antes de engravidar para ver se está tudo bem!!!

Encarei como um elogio, pois não existe medicina preventiva, então, estava adotando uma medida preventiva para uma gestação sem surpresas! E se ficou curioso, o Dr. não encontrou nada de errado.

Então, já que estava tudo sob controle, iniciei a minha busca para conhecer o desconhecido, comecei a ler, pesquisar os mais diversos assuntos, tudo naquela linha “faça você mesmo”, pois já que todos dizem que filho dá despesa, nada mais coerente que realizar tudo que estivesse ao meu alcance, e eu sendo artesã achava o máximo colocar a mão na massa, afinal, estaria economizando para as fraldas que normalmente usam até por um ano e meio ou dois. Então lá estava eu pesquisando, lendo e aprendendo os mais diversos assuntos, desde lista de enxovais, cuidados com o bebê, atividades lúdicas e pedagógicas, o que comer para ter uma gestação saudável, da importância de tomar ácido fólico três meses antes de engravidar par uma melhor formação neural, prevenindo alterações genéticas (quando li isto sobre o ácido fólico pensei, viu só, não estou tão errada assim, vou tomar isso pra prevenir qualquer tipo de problema, me senti tranquila, meu futuro bebê estaria livre de alterações genéticas!) e pesquisava, não queria deixar escapar nada!
E assim foi, mês após mês, somando conhecimento através da leitura, observando crianças em lugares públicos e pensando: Ah! Comigo isso nunca irá acontecer, olha o tipo daquela mãe! Eu estaria preparada para tuuuuudo, desde as tarefas simples como trocar uma fralda até a de usar a psicologia reversa para contornar alguma situação constrangedora.

Então as coisas não saíram como o planejado, nossa viagem foi adiada, e o tratamento médico foi necessário, teríamos que utilizar o último e mais caro dos recursos para poder engravidar, e o fizemos várias vezes! E todo meu conhecimento de nada valia! Eu não tinha um bebê para por em prática tudo que sonhei, idealizei!
Então já que as pessoas temem o desconhecido, fomos aprender como tudo isso funcionava... e mudamos o foco da leitura (percebeu que o verbo em primeira pessoa do singular, eu, passou para primeira pessoa do plural, nós! Pois o desconhecido agora dependia de ambas as partes!) ... e o anormal se tornou normal... e o complexo se tornou simples, mas não perdeu a sua complexidade, apenas buscamos entender para melhor lidar com toda essa nova situação jamais imaginada!

E quando finalmente o tão sonhado positivo acontece, a única coisa que você não quer pensar é que algo possa dar errado, isso não pode acontecer, lembra, procurei um ginecologista antes de engravidar, tomei caixas e mais caixas de acido fólico, fui uma gestante feliz e disposta a vivenciar tudo! Já viu alguém vomitar o café da manhã e sorrir!? Eu vibrava a cada quilo adquirido, a cada centímetro de circunferência aumentado, eu queria vivenciar a “minha viagem” em todos os aspectos! E assim fiz!

Mas e se algo desse errado? Não, isso não estava nos meus planos, é muito rasa a hipótese de passar pela cabeça de uma gestante, que demorou oito anos para engravidar, algo que não se assemelha a tudo que até então havia sido planejado, idealizado, estudado, observado e esperado para este momento. Só que não pensar, ou ler, não exclui a possibilidade de algo acontecer! E aconteceu!

Um dia depois de seu nascimento, parto normal, atermo, ao invés de levar meu bebê para casa, a levaram para uma UTI! Quem em sã consciência vai pensar em ler sobre UTI durante a gestação! E mais uma vez tivemos que aprender a lidar com o desconhecido! E assim fizemos!

Foram vários dias de internação, 34 para ser mais exata, mas que pareceram ser 340, porque o tempo numa UTI é inversamente proporcional ao tempo do mundo aqui fora, os minutos se arrastam, os dias são longos. Mas aprendemos a logística do desconhecido, e ficou mais aceitável a espera do dia que iríamos embora, porque eu tinha certeza que iríamos embora... nós três.

E este dia chegou! A alegria se misturava ao medo, medo novamente do desconhecido, porque após 34 dias finalmente nós seríamos responsáveis por aquele ser humano completamente vulnerável, como descrevi lá no início deste texto. E agora! Com uma carta de recomendação nas mãos orientando procurar todo tipo de especialidade para descobrir o que a levou chegar até uma UTI, e um resumo de alta que tirando a data e o nome dela, não dava para entender nada, eram tantas siglas de procedimentos e medicamentos que nesse primeiro momento nem tentei entender! Queria ir para casa!

Estava tranquila, tudo era novo, mas eu finalmente estava com meu bebê, e poderia por em prática tudo aquilo que li, pesquisei, idealizei!

O choro ininterrupto dia e noite com pequenas pausas de trinta a quarenta minutos durante o sono levíssimo, indicava que algo não estava muito certo, mas como passou todo esse tempo na UTI, praticamente foi uma gestação de 10 meses até literalmente entrar no seio da família, imaginávamos que fossem traumas, ou reflexos de um início de vida completamente conturbado, talvez seu corpinho ainda estivesse todo dolorido, pois os hematomas e marcas das picadas ainda eram visíveis (na UTI, numa das visitas para amamentar contei 29 furinhos em um só calcanhar! Complicado não?), além, é claro, das abomináveis cólicas que todo recém nascido tem.

Mas acreditava que tudo estaria caminhando para a normalidade, agora o terreno era conhecido, os boletins diários dos sites especializados para gestante que já vinham me informando de todo seu desenvolvimento, agora iniciavam um novo capítulo, o do lado de fora da barriga!

Nada acontece por acaso, não é a primeira, nem será a última vez que direi isso! Então a pediatra certa, nos encaminhou para a neurologista certa, e nossa filha, aquele bebê cuidadosamente planejado, idealizado, sonhado, já em sua primeira consulta com a neuro, é imediatamente detectado que Cecília não correspondia a um bebê de mesma idade, quatro meses, seu comportamento motor, seus reflexos, seu choro, tudo isso indicaria que algo não muito bom estava acontecendo! Neste dia o meu filho idealizado morreu, o luto se instalou, mas ainda havia alí um bebê vivo, que precisaria de cuidados, muiiiiiitos cuidados!

Então pela terceira vez, o desconhecido bate a porta! E dessa vez  com muita força, para derrubar! 
Mas todos sabem que se você pegar um graveto e forçar, ele se quebra com facilidade, agora se ele estiver num feixe, junto com vários outros gravetos, não será tão fácil assim quebrá-lo. E felizmente este graveto aqui que vos escreve, trincou, mas não quebrou, pois foi posicionado bem no meio do feixe, e foi abraçado por todos, por isso resistiu a tanta pressão!
E mais uma vez tivemos que aprender sobre o desconhecido para entendê-lo, dessa forma o complexo mais uma vez se tornou simples mesmo sem perder sua complexidade!
E a cada dia vem sendo assim!
E você acha que eu já sei tudo, ou que não tenho mais medo porque hoje conheço o que antes era desconhecido?
Está enganado! Cecília está crescendo, percebo isso não apenas pela descrição do pacote de fraldas, que ainda usa, dizendo: "para criança acima de 15kg", ou pelas calças curtas, ou blusas apertadas, minhas costas e meu ciático não se pesam para me avisar diariamente...ela cresce, você envelhece! 
Pareço um tiranossauro Rex, não pela idade, não estou tão velha assim, mas meus braços estão cada dia mais curtos para carregá-la ou simplesmente abraçá-la...e agora? O que será do futuro? E quando eu não estiver mais aqui? 
E o desconhecido mais uma vez vem dando as caras...mas então faço igual pedestre em linha férrea: "paro... olho... escuto" e lembro que nem eu, nem ela e nem você sabe o que vai acontecer amanhã, semana que vem, mês que vem ou daqui 50 anos! E que como diz o jornalista Pedro Bial em um de seus muitos textos: "preocupe-se, ou saiba que preocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra!"
Então abro a geladeira, vejo o que vou fazer de almoço, e vivo cada dia, um por vez!

Nótlia Zirtaeb
 

Mundo Adaptado ®
Nótlia Zirtaeb
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Mãe atípica em tempo integral, aprendendo um pouquinho a cada dia, e muito, mas muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito feliz por ser mãe da Cecília! Realmente não sou eu que cuido dela, é ela que cuida de mim!

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