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Primeira consulta e o choque de realidade

Primeira consulta e o choque de realidade

Dez dias após o nascimento do Gabriel voltamos ao hospital para iniciar o tratamento, que ainda nem sabíamos como seria, nos pezinhos dele. Fomos eu, o Gabriel e minha mãe porque ficamos alguns dias na casa dela, pois meu marido tinha que trabalhar e eu preferi ficar lá para me recuperar do parto e também receber ajuda nos primeiros dias de vida do Gabriel. 

Chegando ao hospital fomos informados que o ortopedista não atendia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), somente particular. Não esperávamos por isso, achamos que esse tratamento era oferecido pelo SUS e não fomos orientados na alta. Apenas nos falaram para voltarmos em dez dias, o que nos preocupou mais ainda naquele momento, e ficamos apreensivos porque não fazíamos ideia do valor de um tratamento ortopédico. Lembro que a recepcionista do hospital me falou: “conversa com o médico e vê o que ele pode fazer pra vocês”. E assim fizemos. 

Chegando na sala de consulta falei para o médico que eu era a mãe da criança que nasceu com um "probleminha" nos pezinhos e no dia haviam o chamado para ver o caso. Depois perguntei como negociaríamos o tratamento.  Ele se lembrou de ter visto o Gabriel e disse: “vocês pagam o material que vai ser gasto e eu não cobrarei o tratamento. Vou dar o tratamento a ele”. Fiquei sem entender em um primeiro momento, mas, com certeza, muito grata!

Esse médico não era ortopedista pediátrico, mas, por ser de Belo Horizonte, trabalhou em um hospital que tratava Pé Torto Congênito e aprendeu a técnica pelo Método Ponseti. Foi um anjo que apareceu em nosso caminho!

Como disse no início, até então eu não sabia como seria feito o tratamento, nem o nome do que meu filho tinha e tampouco quanto tempo duraria. Hoje eu acho que o médico não queria me preocupar. Me lembro de deitarem o Gabriel na maca e tirarem a roupinha dele enquanto a esposa preparava tudo para colocarem o gesso.

Enquanto colocavam o gesso, o Gabriel chorava de forma descontrolada. Eu fiquei sem saber o que fazer ao ver meu filho chorar como nunca tinha chorado. Acredito que por estar sem roupa (onde moramos é muito frio) e, principalmente, por segurarem ele tão novinho e mexerem em seus pezinhos era incômodo e desconfortável demais para ele. Tive a sorte de ter a minha mãe ao meu lado para me ajudar a acalmá-lo.

Confesso que não tive condições. Foram as duas cenas piores da minha vida e nunca vou me esquecer daquele choro do Gabriel e a imagem do gesso que para mim, até aquele momento, seria uma 'argolinha na canela'. No final da colocação vi que seria um gesso da ponta dos dedos até a virilha. Foi um choque de realidade. Tão pequeno e indefeso com os dois pezinhos engessados. Aliás, as duas pernas. Não contive minhas lágrimas.

Hoje imagino o que minha mãe passou naquele momento, vendo o neto e a filha naquela situação de sofrimento. O médico e a esposa dele falaram comigo na tentativa de me acalmar, mas eu não consegui me conformar. Queria de todo jeito que aquilo tudo fosse comigo e não com meu filho. Senti  doer na minha alma e parecia que o mundo tinha caído sobre minha cabeça.

Quando terminou de colocar o gesso, o médico chegou a dizer que se eu não confiasse no seu tratamento eu tinha total liberdade de procurar outro profissional. Expliquei a ele que não era falta de confiança e sim um choque muito grande, também de aceitação. Então, a esposa dele segurou forte em minha mão e me disse: "Sou mãe também, entendo o que você tá passando. Tenha força! Você vai vencer.”

O médico me explicou que o gesso seria trocado semanalmente e eu perguntei quanto tempo duraria o tratamento. Ele me respondeu que não sabia, talvez seis meses ou mais. Eu nem imaginava que seria um longo caminho, mais precisamente quatro anos.

Fomos embora para casa e o Gabriel continuava bem incomodado com o gesso. Eu não conseguia parar de chorar, enquanto ela segurava o Gabriel no colo e tentava me acalmar e me fazer enxergar o lado positivo daquela situação: tinha tratamento, graças à Deus, e ele teria uma vida normal. 

Em todas as consultas, a esposa desse médico o acompanhava porque ele já era idoso e sofria com algumas doenças por conta da velhice. No decorrer do tratamento nos tornamos amigos. Cuidaram do Gabriel com todo amor e nós jamais vamos nos esquecer desse carinho.

Como moramos em um sítio, zona rural, levamos alguns presentinhos para eles. Não como forma de pagamento, e sim de gratidão pelo o que estavam fazendo por nós e especialmente para o Gabriel. Ele sempre será considerado como o eterno vovô Itamy, como ele mesmo dizia para o Gabriel. 

                                                     Gabriel, minha mãe e eu

Saí da maternidade ainda sem produzir leite materno. Um médico me orientou e receitou um remédio para aumentar a minha produção de leite. Me esforcei, pois queria muito amamentar, sabia da  importância do leite materno para o bebê. Aos poucos fui armazenando leite materno, porém no primeiro dia da colocação do gesso sofri um impacto tão forte, que no dia seguinte já não tinha uma gota sequer de leite. Secou de repente e dali em diante precisei encontrar outras maneiras de manter o vínculo com o meu filho e ajudá-lo no tratamento que estava só começando. 

No próximo post contarei sobre a adaptação do Gabriel e a nossa ao tratamento. Até mais.

Mundo Adaptado ®
Joselene Andrade
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Sou casada e mãe do Gabriel- que nasceu com o pé torto congênito (ptc), "meu pezinho de ouro". Maternidade atípica. Costumo dizer que ele é o presente mais lindo que Deus me deu.

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