Nem tudo é intuição-Leãozinho Leo-Cap.3
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Nem tudo é intuição-Leãozinho Leo-Cap.3

Continuando o último post sobre Incompetência Ístimo Cervical...

Os dias continuavam, as minhas fisioterapias, injeções diárias de Clexane, e a posição de morcego começavam a incomodar. Minha barriga crescia e o Leo aumentava de tamanho. Comecei a sentir uma pressão grande no pulmão, um pouco de sufocação. E eu só estava com 5 meses de gestação. Tudo isso me preocupava muito. Meu colo do útero era medido toda semana através de ultrassom realizado próprio quarto.

A equipe médica era sensacional. Costumavam passar diariamente e eram maravilhosos comigo. Lembro de vários médicos, cada um com sua peculiaridade. Eu andava muito ansiosa e sem nada para fazer o dia todo, a movimentação no quarto era grande, começava às 7hs com o café da manhã. Depois entravam os médicos para avaliações diárias. Uma delas era toda carinhosa, acendia apenas a meia luz com toda delicadeza. Ela tornou-se minha ginecologista mais tarde.

Outra médica era muito doidinha, entrava no quarto como um furacão, e parecia estar sendo arremessada contra porta. Eu nem precisava olhar e já sabia quem era. A gente se divertia com tudo isso, mas também estressava.

O barulho no hospital não me deixava descansar, até que compraram um tampão de ouvido para eu conseguir dormir e as enfermeiras fizeram uma plaquinha para a porta do quarto. Quando eu queria descansar ficava avisado e ninguém entrava. A impressão que eu tinha era que os sentidos ficavam aguçados.

Mudei de quarto umas três vezes e isso era muito legal, pois eu conseguia dar uma volta com a cama no corredor do hospital. Até que em uma das trocas tomei um susto. Um médico passou pela enfermeira que estava me transportando e falou: "Fulana, vá até o quarto x e diga àquela mãe que se ela não levantar do pós cesária, e não der pelo menos uma volta no corredor, eu volto lá da próxima vez e peço para retirarem a cama do quarto!". Eu até comentei com a enfermeira para eu ir até lá com cama e tudo visitá-la e perguntar se queria trocar de lugar comigo. Rimos bastante disso.

Eu e meu marido começamos a entender um pouco mais sobre a área da saúde. As diferenças das atividades de uma enfermeira para uma técnica de enfermagem, entre outras particularidades. Eu perguntava tudo que eu tinha direito. Queria aproveitar aquela experiência para passar o meu tempo.

Eu tinha tanta curiosidade em tudo que me cercava lá dentro e também do mundo lá fora que foram inúmeras as vezes que meus pais deram uma volta na Avenida Paulista e tiraram fotos para eu saber como estava o dia. Até foto do banheiro do quarto eu pedi para tirar, pois não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.

Assistia TV o dia inteiro e a  noite meu marido retornava do trabalho. Ele me contava sobre as pessoas que oravam por nós e mandavam energias positivas. Uma vez, na troca de turno da minha mãe com o Renato, fiquei sabendo que ele estava chorando do lado de fora e não quis entrar para eu não me emocionar e aumentar o risco de dilatação do meu colo do útero. Quando ele entrou perguntei, se em algum momento algo grave acontecesse, eles me contariam, pois eu não queria ser a última a saber. E ele disse que sim. 

Eu já não aguentava dormir sozinha naquela cama de hospital e ainda de ponta cabeça. Até que em um determinado dia olhei para o lado e lá estava ele dormindo comigo. 

 

Eu morria de vergonha, as enfermeiras chegavam e estávamos os dois ali. Mas isso foram em alguns momentos apenas, pois eu mal podia levantar a cabeça. 

Em uma determinada manhã, algo muito grave aconteceu. Jamais imaginei que passaria por uma situação dessas em um hospital e impossibilitada de me movimentar. Eu estava com aproximadamente 23 semanas de gestação, meu pai retornaria à Curitiba por volta das 6hs da manhã para não pegar muito trânsito.

 Eu acordei às 7hs com a chegada do café da manhã no quarto, o Renato logo saiu para o trabalho e minha mãe assumiu o posto de acompanhante. Perguntei a ela o horário que meu pai havia saído e ela confirmou, 6hs da manhã. Enquanto isso, eu assistia o jornal local de São Paulo e chamou minha atenção um engavetamento que havia ocorrido durante a madrugada na Rodovia Régis Bittencourt. Acidente sem vítimas, algo bem leve, como a foto abaixo. 

 

Eu fiquei com isso na cabeça. Passaram-se aproximadamente umas  2 horas, e tentei ligar para meu pai, que estava em viagem. Queria saber se estava tudo bem com ele, mas é claro que ele não atendia ao telefone. Estava viajando sozinho e de carro. Não iria atender se estivesse com o carro em movimento na estrada.

O tempo passava e eu tentei ligar mais algumas vezes e a operadora levava à caixa postal. Realmente eu não tinha mesmo o que fazer...queria perguntar como estava a viagem e cismei que precisava falar com ele. Então parei de ligar.

Por volta das 10hs da manhã meu telefone tocou, era um homem. Haviam muitos gritos atrás, de uma ou duas mulheres chorando, e então ele falou:

Homem: Quem está falando?

Eu: É a Carla

Homem: Carla, você vai ter que ser forte...

Silêncio e pânico tomaram conta de mim.

Eu fiquei branca, meu coração saltou pela boca, lembrei do meu pai viajando, minha irmã grávida, e eu sem poder ficar nervosa por que meu colo do útero poderia dilatar e o Leo nascer ali mesmo, de 23 semanas. Olhei desesperada para minha mãe e praticamente arremessei o telefone em cima dela. Eu não quis saber, mas fiz a pior coisa que eu poderia fazer naquele momento.

Imaginei uma tragédia. Aquela imagem que vi às 7hs da manhã no jornal local, sobre um engavetamento na Regis Bittencourt e de madrugada, transformou-se em um acidente fatal na minha cabeça, e ainda consegui imaginar o meu pai entre os feridos. Como havia uma moça gritando muito, lembrei também da minha irmã grávida. Minha cabeça girava e eu acabei falando a seguinte frase para minha mãe:

Eu: Mãe! Pelo amor de Deus pegue esse telefone da minha mão, aconteceu alguma coisa aconteceu com o pai ou com a Ana!

Mãe: Como assim?

Eu: Não sei mãe, melhor sair do quarto, chame a enfermeira para me segurar antes que eu levante dessa cama!

Mãe: Oi, quem fala? 

Homem: Eu desejo falar com a pessoa que me atendeu.

Mãe: Olha, minha filha está grávida, ela não pode ficar nervosa, está em situação muito delicada.

Homem: Eu quero lhe dizer que sua filha foi sequestrada.

Mãe: Pelo amor de Deus moço! Minha filha está grávida! O que está acontecendo? (Achando que ele estava falando da minha irmã, que estava em Curitiba e também grávida)

Nesse momento ela já estava do lado de fora do quarto, e desapareceu. NINGUÉM a encontrava.

Logo chegou a enfermeira no quarto, e eu já estava com a respiração diferente. Colocaram o aparelho que conseguíamos ouvir o coração do Leo, mas mesmo assim eu só queria levantar dali. 

Correram atras da minha mãe, mas ninguém conseguiu detê-la. Eu liguei para meu marido no trabalho, que ligou para a família toda desesperado e tentando me acalmar.

Eu achava que meu pai havia sofrido um acidente e já imaginava o pior. Minha mãe saiu em busca de um banco para sacar dinheiro e entregar ao suposto sequestrador da minha irmã.

Enfim, meu marido conseguiu falar com meu irmão, que estava bem, com meu pai, que estava chegando em Curitiba, e com a minha irmã, que havia faltado trabalho aquele dia por algum motivo relacionado a sua gravidez. Tentou diversas vezes falar com a minha mãe, até que conseguiu. Ela estava transtornada, já havia sacado o dinheiro e estava quase fazendo o depósito aos supostos sequestradores. Dizia ao Renato que precisava desligar e ele tentava explicar a ela que estava tudo bem com todos. Ela dizia, "Renato! Sequestraram a Ana, eu preciso desligar!" Em tom forte.

Então ele fez  um Conference entre os três. Conseguiu colocar as duas em contato:

Mãe: Ana, é você?

Ana: Sim mãe! Pirou?

Mãe: Meu Deus do céu....

E entendeu que estava caindo em um golpe. E pior, praticamente induzido pela minha cabeça criativa...

Minha mãe ainda ficou alguns minutos na igreja do hospital, foi agradecer e se acalmar para não chegar tão nervosa no quarto. Deve ter orado um monte para Santa Catarina, nome do hospital que eu estava em São Paulo.

Quando ela entrou no quarto, não aguentamos, caímos no choro.

Meu pai, posteriormente, ligou para gente e falou rindo, como tudo que acaba em piada na família:

"Quem tem que ficar preocupado não fica, e quem não pode fica arranjando sarna para se coçar!"

Não preciso nem comentar que essa história rendeu assunto para uma semana entre enfermeiros e médicos. Alguns entravam no quarto brincando e perguntando qual era o assunto da semana no meu quarto. Eu realmente já estava casada com o hospital.

Isso só demonstra do que a mente humana é capaz de criar.

 

 

Já leu o capítulo anterior da história do Leãozinho Leo?

Caso queira se inteirar de toda história do Leãozinho Leo, entre no link abaixo:

https://mundoadaptado.com.br/blog/incompetencia-istimo-cervical-ou-colo-curto

Ou acompanhe todos os textos da história do Leãozinho Leo aqui:

https://mundoadaptado.com.br/leo/t

 

Mundo Adaptado
Carla Delponte
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Empreendedora Social, Atriz, e mãe do Léo, um leão guerreiro!

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