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Antes de ser mãe

Antes de ser mãe

Antes de ser mãe, sempre que ouvia de uma mãe ‘eu não tenho tempo’, ‘não consigo fazer isso ou aquilo’, eu pensava: ‘como ela não consegue?’, ‘ela não se cuida, está quase sempre parecendo louca’, ‘não é possível que não dê tempo’. Claro que nunca falei isso para nenhuma mãe, mas pré-julgava em pensamento quando o assunto era a falta de tempo após a chegada de um filho.

Nunca parei para analisar se essa mesma mãe não conseguia fazer determinada coisa porque não queria ou simplesmente não tinha outra opção. Essa ficha só caiu quando me tornei mãe. Quando percebi que o peso da maternidade, por mais que os homens dividam tarefas e muitos assumem papéis de mães, ainda é maior para as mulheres. Somos nós que estamos 24 horas, 7 dias por semana, 365 dias por ano ligadas no que está acontecendo com os nossos filhos, principalmente, quando esse filho necessita de algum cuidado especial.

Nesses quase 15 meses de tratamento do Pé Torto Congênito (PTC) do meu filho, conheci muitas histórias em que os pais foram embora, abandonaram suas famílias, por não suportarem a responsabilidade de cuidar de uma criança com alguma deficiência ou necessidade especial. Por que isso? Ao meu ver, por várias razões: o dia a dia é pesado, o tratamento requer paciência, força e resiliência por parte da mãe e do pai. Porque é mais fácil fugir do que nos incomoda do que resolver, apoiar, dividir, compartilhar o amor e a dor. Porque ainda existe um machismo cultural que determina que as mulheres têm mais obrigações que os homens. No fundo, esse pai que vai embora está sendo fraco, egoísta e machista.

Lembro de uma mãe dizendo: "Meu marido me abandonou logo que minha filha nasceu com os dois pés tortos e mais alguns probleminhas neurológicos. Tínhamos uma relação ótima, mas ele não suportou ver nossa filha assim". Acho que o pior mesmo é perceber que mães e mulheres justificam os erros dos homens. Justificam como se a culpa fosse delas ou da criança e não desse amor fraco, covarde e egoísta.

Todas as vezes em que ouvia frases como essas,percebia o quanto uma mãe é forte, o quanto precisamos ser fortes. Isso me fortalecia e muitas vezes, ainda hoje, me fortalece. Muitas não têm opção, não têm rede de apoio, não têm chefe que entende, não têm um parceiro dentro de casa para dividir sua dor, seus conflitos e, principalmente, seus pedidos de ajuda.

Depois de ser mãe não tive mais tempo para olhar para mim mesma, não como antes. Não julgo nem em pensamento mães descabeladas que, muitas vezes, não falam coisa com coisa porque estão de olho no filho que está ali ao lado precisando delas. Ou aquela roupa amassada, esmalte descascado, 'legging' e tênis como look permanente e a cara lavada. Talvez essa mãe não tenha opção. Talvez essa mãe só possa contar com ela mesma. 

Então, tenhamos todos mais paciência e compreensão com essas mães que se dedicam à família e aos filhos especiais. Não é desleixo. Mas, falta de tempo ou apoio para cuidar dela mesma já que o seu tempo é dedicado a quem mais precisa.

Mundo Adaptado
Franciela Fernandes
Franciela Fernandes Seguir

Sou Jornalista, casada, mãe do Martim - um menino cheio de vontades, sorridente e dócil. Adoro conhecer e me emocionar com histórias de vida. Sei que temos muito a adaptar neste mundo nem sempre adaptável, mas podemos e devemos fazer a nossa parte.

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