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Resignação, amor e aprendizados

Resignação, amor e aprendizados
Franciela Fernandes
jul. 19 - 4 min de leitura
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Resignação, amor e aprendizados

Quando a experiência de uma amiga pode te ajudar a ver a vida de outra forma.


Conheci a Beatriz, carinhosamente chamada pelos amigos de ‘Bia’, no trabalho. Foi (e ainda é) uma amizade linda. Naquela fase, todos os dias falávamos sobre a vida e os aprendizados. Uma sempre incentivando a outra para que a esperança e o amor fossem presentes diários. Não sabíamos o que o futuro nos reservava.

Bia sempre foi do time que sonhava ser mãe. Eu não. Costumava dizer aos que me cercavam que não teria filhos. O motivo? Não sabia explicar. Sem muitos argumentos, me restringia a dizer que não queria e era questão bem resolvida comigo. Mas como existe ‘porém, contudo e entretanto’ em quase tudo na vida, com os meus anseios não foi diferente. Eles mudaram, se adaptaram, nasceram e continuam me transformando. Parte dessa mudança tem relação com a experiência que a Bia me transmitiu, e continua transmitindo, ao ser a mãe do Pedro, uma criança cheia de vida e tão especial.

Certo dia, eu de um lado da rua e a Bia do outro, olho de longe e penso alto: a Bia está grávida! Não comentei nada. Não perguntei nada. Poderia, afinal, tínhamos e temos liberdade pra isso. Lá vem o ‘porém, contudo, entretanto’ se fazendo presente. Dias depois, veio a confirmação. Ela realmente estava grávida.

Foi demais, incrível, inesquecível poder, diariamente, acompanhar o desenvolvimento e transformação não só da barriga, mas, principalmente, da mãe. Durante os primeiros meses de gestação, aparentemente, ela estava bem e a barriga ia crescendo. Com pouco mais de 20 semanas, cheguei ao trabalho e recebi a notícia de que a Bia tinha passado mal. Perguntei, chorei, senti um aperto no peito.

Ainda não era hora de o Pedro nascer, mas nasceu e pesava uns 750 gramas. Foi direto para a UTI neonatal. Para quem não sabe, o trauma de pais de bebês na UTI é similar ao vivido em guerras, segundo estudo da Escola de Medicina, da Universidade Stanford. A Bia estava sofrendo. Eu sentia que estava.

Foram dias difíceis para quem estava fora do ambiente hospitalar, sem notícias, sem detalhes do que realmente havia acontecido. A família pouco falava. Um ou outro dia uma notícia chegava. Muitos dias passaram. A Bia não saía do hospital e o pequeno-grande Pedro resistia. Meu aperto no peito havia se transformado em oração. Orei muito, com toda a minha força.

A pior sensação em momentos assim é a falta de notícia, é pensar que não verá mais a amiga que ama. É sentir que algo não vai bem e ficar impotente diante do inexplicável que pode acontecer com qualquer mulher. Sentir que não está sendo amiga, pelo fato de não ser ou estar presente, compartilhando ou dividindo a dor.

Por meses, não tive contato com a Bia, só mesmo por meio de notícias que a família fornecia, sem muitos detalhes, até porque entendi que era uma fase solitária, ou melhor, da Bia com o Pedro, do Pedro com a Bia. Isso me fez refletir muito sobre o amor, a capacidade de transformação de como pensamos e agimos. O amor também tem essa capacidade de nos resignarmos.

A Bia e sua experiência me ensinou o poder do amor, mesmo quando ela não sabia ao certo para qual direção estava seguindo, apenas seguia a direção do seu amor.

Dias e meses se passaram. A Bia se recuperou e o Pedro também. Aos poucos, com tratamentos e medicamentos, o pequeno-grande Pedro vive uma vida saudável, com adaptações, num mundo nem sempre adaptável.  

E eu? Adaptei meus anseios, meus sonhos. Quero ser mãe, quero viver o maior aprendizado da vida: a maternidade!

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