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Quando os pais recebem o diagnóstico de PTC (Parte 1)

Quando os pais recebem o diagnóstico de PTC (Parte 1)

Ao levantar da maca, me vesti e já estava saindo do consultório quando a médica disse: “Acho que seu filho tem o pé torto. É só ele usar uma botinha e tá tudo certo”. Oi? Acho que não ouvi direito, pode nos explicar melhor? “Vi aqui no exame que ele está sentado, pode ser postural, mas no próximo exame ultrassom vai dar para ver direito”. Foi assim mesmo, sem qualquer tato ou acolhimento por parte da médica, que eu e meu marido soubemos e tivemos contato pela primeira vez com o termo Pé Torto Congênito, conhecido como PTC.

Naquele momento, grávida de 20 poucas semanas, perdemos o chão. Perderia se estivesse com 25, 30 ou soubesse ao nascer. Olhamos um para o outro e a sensação era de que não era real e tudo não passava de pesadelo. Eu não sabia se abria a porta, se voltava e questionava o diagnóstico impreciso da médica insensível, se sentava no banco do lado de fora da sala de espera, ou simplesmente chorava como criança. Optamos em chorar, por ser a única coisa que conseguimos fazer naquele instante de lucidez. Sim, era choro de desespero, aquele que você se questiona e se culpa. Choro de medo, incerteza sobre o futuro e como seria dali pra frente. 

Choramos juntos, de mãos dadas.

Até por não ter a menor ideia do que era, por não conhecer o assunto, me culpei, nos culpamos. Era mais fácil. Fiquei pensando no que poderia ter feito, ingerido, abusado para que aquilo tivesse acontecendo comigo, com a gente. Meu marido, imediatamente, começou a pesquisar sobre o assunto, qual o tratamento adequado e suas causas. Estávamos completamente atordoados, sem direção. Não existia nem existem causas para PTC, é congênito, pode ser que em alguma geração de ambas as famílias alguém teve pé torto. Só entenderia isso tempos depois de conhecer outros casos, inclusive de famílias em que o pai era PTC e o filho nasceu também com o pé torto, ou então um avô, uma tia distante, enfim, não era o nosso caso. Não temos conhecimento de algum caso nas nossas famílias. 

Não esperamos o próximo ultrassom, que só aconteceria dois meses depois. No dia seguinte, refizemos o exame que durou 1h30 e somente ao final meu filho mostrou, timidamente, seu pezinho esquerdo. De fato, era torto. Mas torto quanto? Não dava para identificar nem o médico arriscou, disse apenas que não fecharia o diagnóstico, pois só saberíamos mesmo ao nascer.

A vida tem dessas coisas, não temos controle sobre tudo. É difícil aceitar quando lá no fundo você, como mãe, só quer que seu filho nasça com saúde e venha ‘perfeito’. Mas aí, com o tempo, você percebe que o perfeito é relativo, é subjetivo.

Depois de passar por esse exame mais detalhado, seguimos com os exames do pré-natal e as consultas de acompanhamento. Nesse período, tanto eu como meu marido lemos muito e conhecemos vários casos de PTC. Ainda assim, a preocupação com a chegada do nascimento aumentava.

Como mãe, eu procurava não pensar sobre isso. Li, assisti a vídeos, procurei o tratamento adequado, mas depois de um tempo já não queria mais saber de nada sobre esse assunto. Talvez fosse uma defesa minha, estava mais preocupada com o quarto, o enxoval, como cuidar do meu filho da melhor maneira possível. Busquei ter uma gravidez tranquila e viver esse momento como mulher.

O fato de saber ainda grávida não poderia influenciar nos meses que ainda tinha pela frente e não se desesperar foi uma escolha. É claro que em muitos momentos chorei no chuveiro, mas em nenhum deles deixei de amar, acreditar e confiar em um tratamento adequado.

O Martim nasceu no dia 09 de março de 2018, um dia após o Dia Internacional da Mulher. Foi o maior e mais lindo presente que a vida poderia me dar. 

Minha bolsa estourou no trabalho. Tinha me preparado para um parto normal, era o que eu queria, mas, de novo, não temos controle sobre tudo, e após 17 horas tentando, fui encaminhada para uma cesárea. A vida tem dessas coisas.

Ouvir aquele choro nos fez esquecer de tudo. Foi daqueles momentos que a vida te leva para uma plenitude indescritível, que só o amor é capaz. Meu filho nasceu com o pé torto congênito unilateral esquerdo, às 8h, com 47cm, 3kg270. Eu estava com 37 semanas e 3 dias de gestação.

Mais sobre essa história? Vou contar em partes, pois a luta de pais de PTC é permanente e compreende várias etapas.    

 

Mundo Adaptado
Franciela Fernandes
Franciela Fernandes Seguir

Sou Jornalista, casada, mãe do Martim - um menino muito sorridente. Adoro conhecer e me emocionar com histórias de vida. Sei que temos muito a adaptar neste mundo nem sempre adaptável, mas podemos e devemos fazer a nossa parte.

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