[ editar artigo]

Projeções cultivadas com expectativa

Projeções cultivadas com expectativa

Toda manhã nos traz a possibilidade de um recomeço. Acorda-se para entregar o ontem ao passado, imutável, e abraçar o futuro, versátil. A vida se desenrola em pequenos ciclos: novo dia, nova semana, novo mês, novo ano. Jornadas se fecham em lembranças e outras emergem em esperança. E não é diferente com a gravidez e o nascimento. Nos preparamos para essa nova era e ansiamos por bem-aventuranças. Mas, e quando a existência se desdobra em linhas rugosas? E quando encaramos uma trilha díspar? E quando o ciclo ao se abrir se apresenta tão cheio de impossibilidades, como aceitar seus laços?

No programa de novembro do Papai Atípico (escute aqui), conversei com o Glauco sobre como foi para ele se tornar pai de uma criança com desenvolvimento atípico, tendo um passado como professor em uma escola para pessoas com deficiência. Como foi para ele se deparar novamente com a deficiência em sua vida, agora a invadir-lhe a intimidade. 

Tiê, seu filho, foi diagnosticado com agenesia de corpo caloso e teve ventriculomegalia, ambas durante a gestação. E após desenvolver Síndrome de West, por volta dos 4 meses, conferiu ao seu pai toda a história pregressa: desde o irmão autista do amigo da adolescência até seu alunos. Cada um com suas próprias características, tão únicos em si, mas tão similares em cuidado, em busca por carinho, em horizontes turbulentos.

 

"O mais difícil foi aceitar a frustração no sentido de falar que ela existe e eu preciso aceitá-la", Glauco confessa.

 

Mas convidar a frustração para um café não é das tarefas mais naturais. Ela, tão filha da expectativa, das idealizações, é senão um sentimento como tantos outros e, desgostosa do isolamento, emerge em nós como um imã de nossas tormentas. Ao silenciá-la, perdi oportunidades. Tanto de ouvi-la, como de enxergar para onde ela precisava me levar. E ao permitir que me guiasse, vislumbrei a mesma trilha percorrida por Glauco:

 

"Eu tenho diversas projeções, e tinha diversas projeções, e é preciso entender que essas projeções são minhas e não são dele".

 

A criação de um filho atípico pode se assemelhar a um quebra-cabeça com peças desconexas. Acho que muito mais pelas projeções que fazemos e impedem o encaixe das peças, do que por suas condições reais. As trajetórias fantasiadas causam inquietações nos caminhos que a vida nos entrega. Afinal, os ciclos se completam e cada raio de sol matutino é um convite a reescrever o que o passado exigiu para si.

Porque como o próprio Glauco certifica: "eu acredito que ele possa ter experiências importantes e qualidade de vida, que toque em minhas projeções, mas da forma dele".

 

                                                                   Glauco e o Tiê

Mundo Adaptado ®
Guilherme Bucco
Guilherme Bucco Seguir

Editor de vídeo, começou a compartilhar as reflexões de sua paternidade atípica, como forma de compreender as mudanças em sua vida com a chegada de Dora, sua filha, que teve hipóxia no nascimento e tem epilepsia de difícil controle.

Ler conteúdo completo
Indicados para você