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Feminicídio

Feminicídio
Maria Ofelia Fatuch
jan. 12 - 7 min de leitura
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A mulher procura no homem o preenchimento do seu vazio, e entre o vazio e o abismo está ele, cavando esse buraco, aprofundando-o para a sua própria morte, em nome do amor.

Essa dinâmica se repete silenciosamente em inúmeras relações, muitas vezes romantizada, mascarada de cuidado ou entrega, quando na verdade sustenta estruturas profundas de dependência e violência emocional que antecedem tragédias anunciadas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um relatório alarmante em 2024. Uma mulher foi morta a cada 10 minutos em algum lugar do mundo por um parceiro íntimo ou membro da família. Isso significa que mais de 60% de todos os homicídios de mulheres ocorreram dentro do ambiente doméstico, pelas mãos de pessoas próximas, como companheiros, pais, irmãos ou outros familiares, revelando um padrão recorrente e devastador.

Em contraste, apenas 11% dos homicídios de homens ocorreram em contextos semelhantes, o que evidencia que a violência letal contra mulheres tem gênero, endereço e padrão bem definidos. No Brasil, a situação não é diferente, pois, em média, cerca de quatro mulheres são assassinadas por dia, vítimas de feminicídio, dentro de relações que deveriam ser espaços de cuidado e proteção.

O início da violência, marcado por controle, machismo e posse, costuma se apresentar de forma silenciosa. Na maioria dos casos, a história começa com um homem controlador inserido em uma sociedade ainda profundamente machista, onde a mulher é vista como objeto de posse masculina. Ele acredita ter o direito de ditar regras, controlar comportamentos, roupas, amizades e decisões, estabelecendo uma dinâmica desigual desde o início.

“O machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo” (Eduardo Caleano). O machismo teme o que ela revela sobre ele mesmo, teme perceber que sua identidade foi construída sobre privilégios, e não sobre maturidade emocional, teme a mulher que não pede permissão, porque desmonta a lógica infantil de um mundo organizado para servi-lo, teme a mulher autônoma porque ela não precisa dele para existir, fere o narcisismo.

No fundo, o machismo revela homens que não suportam a liberdade do outro, porque nunca conquistaram a própria. Essa incapacidade de lidar com a autonomia feminina expõe fragilidades profundas, muitas vezes encobertas por discursos de autoridade ou superioridade.

O homem não aceita o lugar imposto pela mulher sem medo. E isso gera angústia, não uma angústia produtiva, que transforma, mas uma angústia que o machismo tenta anestesiar com dominação, ironia, violência simbólica ou física. Esse machismo, no entanto, não se traduz no papel tradicional de provedor, revelando uma contradição estrutural.

Pelo contrário, os dados mostram que as mulheres sustentam financeiramente os lares, mesmo sendo sobrecarregadas e desvalorizadas. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM) 2025, com base em dados do IBGE, mulheres são chefes de 51,7% dos domicílios particulares permanentes e 93% participam financeiramente do sustento familiar.

Mesmo assim, ganham em média 20,9% a menos que os homens, e 71% são as únicas ou principais responsáveis pela limpeza da casa. Ou seja, além da violência, há exploração econômica e sobrecarga doméstica, compondo um cenário de desigualdade que sustenta e normaliza relações abusivas.

Os números oficiais contabilizam majoritariamente a violência física, mas não há dados consolidados sobre a violência psicológica, que precede quase todos os casos de feminicídio. Essa violência costuma começar com o chamado “love bombing”, um bombardeio de afeto, promessas, intensidade emocional e idealização, criando uma falsa sensação de vínculo profundo.

Esse excesso de amor gera dependência emocional, ativando mecanismos químicos ligados ao prazer e ao vínculo. Em troca, a vítima passa a se submeter, acreditando estar vivendo uma relação especial. Quando a mulher começa a perceber o jogo e questiona o comportamento do agressor, surge o “gaslighting”, e ela passa a ser desqualificada, chamada de louca, insegura ou desequilibrada.

Muitas vezes, o agressor simplesmente desaparece e repete o ciclo com outra vítima. Os traços recorrentes do agressor psicológico incluem padrões de comportamento que se repetem independentemente de diagnóstico clínico, mas que causam danos profundos e persistentes às suas parceiras.

O Transtorno da Personalidade Antissocial (TPAS), como é conhecida a psicopatia, é uma desordem neuropsiquiátrica muito mais comum do que se imagina, atingindo cerca de 1% a 2% da população mundial. Eles ocupam 20% das vagas das prisões em todo o País, o que evidencia o impacto social desse tipo de perfil.

Embora nem todo agressor se encaixe em um diagnóstico clínico, alguns comportamentos são recorrentes, como histórico de múltiplos parceiros, relações marcadas por traições, forte poder de sedução no início, vida afetiva instável e impulsiva, além de postura constante de vítima, carente, injustiçado, “coitado”.

Essa vitimização funciona como manipulação emocional, pois o agressor não lida com seus próprios vazios e transfere a responsabilidade para a parceira a fim de preenchê-lo. Assim, mantém a dinâmica de dependência e controle, dificultando a ruptura do ciclo de violência.

Como reduzir o feminicídio no mundo passa necessariamente por políticas públicas claras, firmes e repressivas. Assim como ocorre com a pensão alimentícia, a violência contra a mulher precisa gerar consequências reais e imediatas, pois a impunidade alimenta o ciclo da agressão e fortalece o agressor.

Fortalecer a denúncia, tanto institucional quanto socialmente, é fundamental. As mulheres precisam ser incentivadas a denunciar não apenas nos órgãos oficiais, mas também socialmente, pois o silêncio protege o agressor. Muitas vítimas se calam por culpa, vergonha ou medo de serem responsabilizadas pelo fim da relação.

Romper o ciclo de normalização é outro ponto central. Um dos grandes problemas é que, enquanto uma mulher se posiciona e rompe, outra entra na fase do “love bombing” e acaba por amenizar o histórico do agressor, mantendo o ciclo ativo e vicioso, que se retroalimenta continuamente.

Ninguém é completo sozinho, mas, para encontrar alguém, exige antes aceitar o que se perdeu. Escolher o outro, não por obrigação, não por destino, mas por vontade. Acolher, mesmo quando a vida não ofereceu muitos motivos para acreditar nisso, reconhecendo limites e possibilidades reais.

O amor mora no possível. Quando duas vidas se encontram no momento certo, até o silêncio parece mais leve. Amar precisa respeito e comprometimento, pois sem isso não há vínculo, apenas repetição de ausências e dores não elaboradas.

Talvez o verdadeiro amadurecimento masculino comece quando o homem não precise mais ter medo das mulheres sem medo, porque finalmente não terá mais medo de si mesmo. Violência contra a mulher não é problema privado, é crime e responsabilidade coletiva.

Se você sofre ou conhece alguém que sofre violência, ligue 180, Central de Atendimento à Mulher. A ligação é gratuita, funciona 24 horas e pode salvar vidas. Silêncio mata. Denunciar é um ato de coragem e proteção coletiva.

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