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Cartas para o ontem

Cartas para o ontem

Conforme avançamos pela estrada do viver, vamos cravando placas para o nosso futuro. Ele, ao olhar para trás, verá não só de onde partiu como também orientações, avisos e conselhos. A direção desses sinais é sempre para frente. Mas,  a vontade é de girá-las para o sul na esperança de alterar o passado. Foi como me senti ao entrar recentemente em um grupo de Whatsapp de mães e pais de crianças com deficiência.

Em uma rápida apresentação, conheci mães cujos filhos também tiveram hipóxia neonatal, outras em busca de um diagnóstico, algumas lidando com o desafio que são os ajustes dos medicamentos. Todas adversidades recém vividas por mim, minha esposa e Dora. E talvez ainda de mãos dadas conosco em nosso presente.

Ali pude contar sobre mim e ser amparado por experiências similares, soluções parecidas e dores, mas muitas dores em sintonia. E é aqui o momento quando me agarro a uma das placas imaginárias e forço seu giro enquanto me sinto ser sugado para o norte.

Quisera o Guilherme recém pai ter tido a oportunidade de ir ao encontro de outras vivências, de tratamentos, de esperança. Não só para a filha, mas para lutar contra o sempre crescente desalento. Em minha trajetória as frustrações me confinaram. Fechado em mim mesmo, sem espaço para me relacionar com as tristezas alheias, eu era o senhor das decepções do mundo. Naquele momento, me aproximar de realidades semelhantes a minha só daria mais voz ao meu desencanto interno.

A verdade é que sentir-me acolhido não fará o cérebro de minha filha crescer, parar com as convulsões e se desenvolver de forma típica. Não me devolverá as expectativas, tampouco as realizará. Mas conversar com pessoas, ouvir histórias, entrar em outros universos, nos tira da solidão. De nos sentir o único alvo das infelicidades da vida. E, principalmente, mostra que não somos os únicos a sermos atingidos pelo caos da existência.

Afinal, como vejo em minhas entrevistas, a tormenta da desilusão vem para todos. E nos isolarmos do mundo para encará-la sozinha só nos arrastará para dentro dela. E uma forma para nos manternos aqui, é buscar apoio e ser apoio para outras famílias atípicas.

Mundo Adaptado
Guilherme Bucco
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Editor de vídeo, começou a compartilhar as reflexões de sua paternidade atípica, como forma de compreender as mudanças em sua vida com a chegada de Dora, sua filha, que teve hipóxia no nascimento e tem epilepsia de difícil controle.

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