“A solidão do nosso tempo é uma solidão disfarçada de encontro. Cuidar da solidão até virar encontro é um gesto de cuidado que aposta no vínculo como caminho e um lembrete de que nenhuma travessia precisa ser solitária."
Alexandre Coimbra Amaral
O amor é condicional. Talvez o amor incondicional exista apenas na relação com o sagrado.
Os deuses suportam projeções absolutas porque não respondem como um humano. Um deus não decepciona da mesma maneira que uma pessoa, pois o vínculo com o divino opera mais no campo da fé, da transcendência e da produção de sentido do que na reciprocidade concreta do cotidiano.
Nos relacionamentos esperamos valorização de tudo aquilo e daqueles aos quais nos dedicamos. Esperar gratidão é humano. O amor é social; necessita do outro para existir.
Principalmente sob a perspectiva da psicanálise, o sujeito se constitui no olhar e na linguagem do outro. Quem sou eu perante quem me vê?
Construímos nossa identidade a partir desse reconhecimento. Em certo sentido, somos parcialmente produzidos pela forma como somos percebidos. Por isso, desejar validação não é necessariamente uma falha ética, mas uma dimensão estrutural do vínculo humano.
O sofrimento surge quando tentamos negar essa condição. Fingimos não precisar do próximo, enquanto pretendemos ser acolhidos, compreendidos e legitimados.
É necessário distinguir aquilo que esperamos daquilo que é real. O outro somente pode oferecer o que tem. Grande parte da angústia nasce quando exigimos de alguém aquilo que ele não é capaz de dar.
Nossas histórias são incompletas, e tentamos preenchê-las para seguir em frente. Buscamos organizar a vida como a narrativa de um filme ou livro: começo, meio e fim. Mas a realidade não obedece a esse cronograma.
A existência é fragmentada, descontínua e, muitas vezes, sem conclusão.
Durante boa parte da vida somos cercados por pessoas, festas, trabalho e distrações. O envelhecimento frequentemente nos aproxima da solidão. Aos poucos, desmontam-se os personagens sociais que sustentávamos para existir diante do mundo.
Surge então o confronto inevitável consigo mesmo: quem é você? Como você se enxerga perante o mundo quando desaparecem os rótulos?
Sem diploma, profissão, estado civil, religião, dogmas ou doutrinas. O que resta quando nos encontramos diante do silêncio e da escuridão, sem as identidades que pais, amigos e a sociedade atribuíram a nós?
Se dependemos inteiramente do olhar alheio para existir, corremos o risco de nos tornar apenas reflexo das expectativas dos outros. Vivemos tentando corresponder a imagens externas, enquanto nos afastamos daquilo que talvez sejamos de forma mais íntima e silenciosa.
Possivelmente, no fim da vida, reste a fé. Não necessariamente como religião institucional, mas como aquilo que transcende nossa capacidade de compreender e controlar.
Quando as certezas desmoronam, reste apenas a tentativa de encontrar significado no que ultrapassa a linguagem, a razão e o próprio entendimento.
A fé, nesse sentido, pode não ser uma resposta, mas uma permanência diante do mistério.
Nasce a necessidade de exigir, principalmente dos mais próximos, uma presença que já não é mais possível. Ensinamos a voar quem deveria ficar.
Na solidão, o encontro consigo mesmo se torna possível, assim como a decisão sobre o que fazer com o restante da vida. Ainda assim, nenhuma escolha é inteiramente individual: dependemos uns dos outros até mesmo para manter ou negar aquilo que desejamos.
O vazio nunca se completa. Tentamos preenchê-lo através do pertencimento, das relações, das conquistas e das projeções sobre o futuro.
Mas todo desejo perde parte de sua força no instante em que se realiza.
E assim a vida segue: dia após dia, entre distrações e reflexões silenciosas sobre a própria caminhada.
O que dói mais: estar sozinho ou não poder mais sustentar a persona que criaram e também criamos sobre nós mesmos?
Pessoas, trabalhos e cidades pareciam essenciais e deixaram de fazer sentido. Então surge a pergunta: o que realmente queremos?
Talvez o que perdemos não sejam pessoas ou lugares, mas a sensação de infinitas possibilidades que um dia o futuro oferecia.
Procuramos no passado algum tipo de abrigo, mas encontramos apenas lembranças e, com elas, inevitavelmente, suas frustrações.
O novo não nos completa, mas nos obriga a continuar existindo para além daquilo que já deixou de ser.
É no novo que a vida acontece. E é nele que o encontro pode acontecer.
O novo talvez seja a única possibilidade real de reencontro com a vida.



